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O Extremismo da Direita como Última Fase do Neoliberalismo: Um Ensaio Histórico-Político
Se o neoliberalismo chegou ao seu limite e já não consegue extrair mais lucro sem destruir as próprias bases do sistema — salários, emprego, consumo e estabilidade social —, as elites económicas e políticas não recuam. Pelo contrário, radicalizam-se.
Por Administrador
Publicado em 28/03/2026 13:00
Novidades

 

  1. Introdução: O impasse do nosso tempo

     

O mundo atravessa um período de transição histórica marcado por crises económicas, políticas e sociais profundas. O neoliberalismo, dominante desde finais da década de 1970, está em colapso. A sua promessa de prosperidade universal através da liberalização dos mercados, da globalização e da desregulação mostrou-se insustentável. O que se ergue no seu lugar não é um novo paradigma de justiça ou redistribuição, mas sim a ascensão da extrema-direita, que atua como instrumento político da defesa das elites no Ocidente.

 

O radicalismo autoritário da direita não representa um futuro viável, mas a tentativa de proteger lucros e privilégios num sistema económico em ruína. É, em essência, a última fase de um ciclo histórico: o neoliberalismo falhou, e a extrema-direita surge como o seu “escudo final”.

 

  1. O ciclo neoliberal: ascensão, apogeu e falência

     

O neoliberalismo nasceu como resposta à crise dos anos 1970. O modelo fordista-keynesiano do pós-guerra, baseado em pleno emprego, sindicatos fortes e Estado social, entrou em colapso com a estagnação económica e as crises do petróleo. A solução apresentada por Reagan e Thatcher foi uma rutura: privatizações em massa, liberalização dos mercados, redução do Estado e ataque direto às estruturas laborais.

 

Durante os anos 80 e 90, o modelo pareceu triunfar. O crescimento financeiro, a queda da União Soviética e a expansão da globalização pareciam confirmar a “inevitabilidade” do neoliberalismo. Mas sob essa superfície, formavam-se fissuras:

Financeirização da economia: os lucros passaram a depender mais de especulação e dívida do que de produção.

Desindustrialização das potências centrais: as fábricas migraram para países de baixos salários, destruindo empregos qualificados no Ocidente.

Precarização laboral: o trabalho tornou-se temporário, parcial e inseguro.

Concentração de riqueza: a desigualdade disparou, corroendo a coesão social.

O neoliberalismo prometeu prosperidade difusa, mas entregou insegurança permanente.

 

  1. Crises acumuladas: 2008, 2020 e a estagnação permanente

     

A crise financeira de 2008 foi o grande ponto de rutura. Os Estados intervieram com milhares de milhões para salvar bancos e mercados, mas impuseram austeridade às populações. O resultado foi devastador: colapso da confiança nas instituições, aumento da pobreza e enfraquecimento da democracia.

 

A pandemia de 2020 consolidou ainda mais o poder das grandes tecnológicas e expôs a fragilidade das infraestruturas sociais após décadas de cortes. Hoje, o capitalismo neoliberal sobrevive apenas numa forma crónica de estagnação secular: crescimento anémico, endividamento estrutural e perda de horizontes.

 

  1. A tecnologia como falsa salvação

     

Com o esgotamento dos mecanismos clássicos de lucro, o capital apostou nas novas tecnologias: inteligência artificial, automação, plataformas digitais. Estas poderiam, em teoria, libertar a humanidade de tarefas repetitivas e permitir sociedades mais equilibradas. No entanto, no quadro neoliberal, foram usadas apenas para eliminar custos laborais e concentrar poder.

A contradição é evidente:

Máquinas substituem trabalhadores.

Trabalhadores sem salário decente, perdem poder de consumo.

Sem consumo de massas, o capitalismo entra em crise.

A tecnologia, em vez de abrir um novo ciclo, acelerou a implosão do sistema.

5. A extrema-direita como gestão política do colapso

É neste contexto que a extrema-direita se expande. Não como alternativa económica, mas como mecanismo de gestão política da crise em favor das elites.

O seu papel é canalizar o descontentamento popular para alvos falsos — migrantes, minorias, ambientalistas — e impedir qualquer reforma redistributiva que possa afetar os grandes interesses. O extremismo autoritário funciona, assim, como um escudo que protege os lucros numa sociedade em colapso.

 

  1. Parale­los históricos: os anos 30 e os anos 70

     

A situação atual ecoa dois momentos chave do século XX:

Os anos 30, quando o fascismo europeu surgiu como defesa violenta das elites após a crise de 1929.

Os anos 70, quando o neoliberalismo se impôs como solução radical para a crise do "fordismo".

Hoje, tal como nesses momentos, estamos perante uma transformação sistémica. Mas desta vez, o que se constrói é uma forma híbrida de capitalismo digital e autoritário.

 

  1. Preparação para o desconhecido: a escolha defensiva das elites

     

As elites económicas estão plenamente conscientes de que o neoliberalismo esgotou o seu ciclo. Mas, em vez de procurar alternativas sustentáveis, optaram por uma estratégia defensiva para manter lucros e privilégios.

 

A aposta deliberada na extrema-direita traduz-se em:

endurecimento securitário e vigilância digital;

repressão de sindicatos e movimentos sociais;

mobilização de discursos de ódio contra inimigos internos e externos; bloqueio de políticas de redistribuição de riqueza.

 

Não é um acaso histórico. É uma escolha consciente: preservar a acumulação de capital através de um regime cada vez mais autoritário, mesmo sacrificando democracia, estabilidade e direitos sociais.

 

  1. Conclusão: o regresso ao feudalismo

     

O neoliberalismo chegou ao fim da linha. O extremismo da direita não é uma solução, mas a última tentativa de prolongar artificialmente a vida de um modelo que já se tornou insustentável. O resultado é um novo tipo de sociedade que se aproxima perigosamente de um neo-feudalismo corporativo.

Na prática, regressamos ao que pensávamos ter superado:

No passado, as monarquias concentravam poder e riqueza em poucas mãos.

A modernidade prometeu democracia, direitos sociais e ascensão da classe média.

Hoje, a classe média dissolve-se, e assistimos à divisão nítida entre ricos e pobres.

Não há reis, mas há corporações que exercem o papel de reis. Não há títulos de nobreza, mas há monopólios tecnológicos e financeiros que controlam os destinos de nações inteiras.

 

A ironia histórica é brutal: não satisfeitos com a monarquia, criaram um sistema que prometia liberdade e igualdade. Mas, no seu ocaso, o capitalismo trouxe-nos de volta ao mesmo: uma nova Idade Média, onde poucos mandam e muitos obedecem, e onde a democracia corre o risco de se tornar apenas uma memória distante.

 

Como é que a extrema direita convence o povo?

 

1. Criação de bodes expiatórios

Em vez de falar do colapso do sistema económico, a extrema-direita aponta culpados fáceis: migrantes, minorias, feministas, ambientalistas, “globalistas”, elites culturais.

 

Funciona como válvula de escape: a frustração social não é dirigida contra as elites económicas (quem realmente concentra riqueza), mas contra grupos frágeis ou difusos.

É a mesma técnica usada nos anos 30 com judeus, comunistas e estrangeiros: canalizar a raiva popular para alvos falsos.

 

  1. Apropriação da linguagem da revolta

     

Embora defenda os interesses das elites, a extrema-direita fala como se fosse “anti-sistema”.

Usa uma retórica de “povo contra políticos”, “nação contra elites corruptas”, “trabalhadores nacionais contra migrantes exploradores”.

Na prática, finge estar do lado do povo, enquanto bloqueia qualquer política que ataque os lucros do grande capital.

 

  1. Uso intensivo da comunicação emocional

     

A extrema-direita não convence com estatísticas ou análises económicas, mas com emoções fortes: medo, ódio, nostalgia, orgulho nacional.

Recorrendo a slogans simples e repetitivos, cria uma sensação de identidade e clareza, em contraste com a linguagem complexa e tecnocrática da política tradicional.

O objetivo é substituir o raciocínio crítico por instinto emocional.

 

  1. Exploração da insegurança social

     

A precariedade laboral, a perda da classe média, a insegurança económica e a crise de futuro são apresentadas como resultado de “inimigos externos”: globalização cultural, migrantes, União Europeia, etc.

 

 

 

A extrema-direita promete devolver estabilidade, “empregos nacionais”, proteção da família — mesmo que não tenha meios reais para o fazer.

Esta promessa funciona porque joga com um medo real: o medo de cair ainda mais abaixo.

 

  1. Reescrita da história e nostalgia

     

Um dos trunfos mais fortes é a ideia de que o país já foi “grande” e precisa “voltar a ser”.

Cria-se uma nostalgia de uma ordem perdida: o tempo em que havia empregos seguros, famílias tradicionais, identidade homogénea.

Essa nostalgia é seletiva e manipulada — nunca mostra a exploração, a pobreza ou as desigualdades desse passado.

 

  1. Guerra cultural permanente

     

Para esconder os problemas económicos, a extrema-direita foca-se em batalhas simbólicas: casas de banho, identidade de género, tradições nacionais, língua, bandeira.

Esta “guerra cultural” mobiliza emoções e cria sensação de luta constante, desviando a atenção da crise estrutural do sistema.

 

7. Uso de redes sociais e algoritmos

Plataformas digitais funcionam como megafones: mensagens simples, polarizadoras e emocionais espalham-se mais rápido do que análises críticas.

Bots, fake news e campanhas coordenadas criam a ilusão de consenso e esmagam vozes dissonantes.

O ambiente digital, feito para gerar cliques e indignação, favorece a extrema-direita de forma estrutural.

 

  1. Normalização do discurso violento

     

Palavras duras, insultos e agressividade passam a ser vistas como “autenticidade” e “coragem contra o politicamente correto”.

O que antes seria inaceitável torna-se normal no espaço público, deslocando todo o espectro político mais para a direita.

 

  1. Apoio discreto das elites económicas

     

Muitas vezes, empresas de comunicação e grupos financeiros dão palco à extrema-direita porque ela defende os seus interesses económicos (baixos impostos, privatizações, enfraquecimento de sindicatos).

Assim, ideias radicais parecem ter “legitimidade” mediática, quando na verdade estão a ser impulsionadas estrategicamente.

 

  1. Promessa de ordem em tempos de caos

     

O neoliberalismo cria desordem: empregos instáveis, crises financeiras, insegurança.

A extrema-direita apresenta-se como a única força capaz de restaurar “ordem” e “autoridade” — mesmo que seja através de repressão.

O povo, cansado da incerteza, é seduzido por essa promessa de estabilidade, ainda que ilusória.

Ou seja, a extrema-direita convence, não porque ofereça soluções reais, mas porque domina a arte de transformar frustração em identidade, medo em obediência e ódio em mobilização. Ela é a embalagem emocional de um sistema económico em ruína, mas que ainda precisa de tempo para sugar os últimos lucros antes de implodir.

 

Se o neoliberalismo chegou ao seu limite e já não consegue extrair mais lucro sem destruir as próprias bases do sistema — salários, emprego, consumo e estabilidade social —, as elites económicas e políticas não recuam. Pelo contrário, radicalizam-se. É aqui que a extrema-direita ganha força: funciona como última defesa do sistema, procurando impor ordem através do autoritarismo, da violência simbólica e física, e da manipulação cultural das massas.

 

Contudo, essa radicalização não é apenas política ou económica. É também biológica e tecnológica. O mesmo movimento que empurra a sociedade para um neo-feudalismo corporativo cria, em paralelo, uma nova eugenia, adaptada ao século XXI. Já não falamos apenas de políticas económicas de exploração ou exclusão social; falamos de controlo da própria vida humana — dos corpos, da saúde, da reprodução e até da definição de quem merece ou não viver.

 

Assim, o que vemos hoje é uma convergência perigosa:

A falência do neoliberalismo, que já não consegue sustentar uma classe média;

A ascensão da extrema-direita, que mobiliza ressentimentos e medos para proteger os interesses das elites;

É a eugenia moderna, que dá às mesmas elites um instrumento de seleção social e biológica, mascarado de progresso tecnológico.

O resultado prático é a construção de um novo regime: sem reis mas com empresas que fazem o papel da aristocracia; sem direitos universais mas com privilégios seletivos; sem democracia mas com uma gestão tecnocrática da vida. É a restauração de uma ordem feudal, desta vez biopolítica e biotecnológica.

 

É neste contexto que entram figuras como Steve Bannon, Peter Thiel, a Heritage Foundation e o Claremont Institute. Não atuam isolados. Fazem parte de um ecossistema político, ideológico e tecnológico que reconfigura o autoritarismo para o século XXI, sustentado em eugenia funcional, estratégica e ideológica.

 

Vasco Lemos Barreto in Facebook

 

O que nos leva ao texto que escrevi anteriormente. https://www.facebook.com/vlbphoto/posts/pfbid03RBswsp7VF79uVzVS9qQn15FYDSrZGkqC799ov3xWeV8ABzMLVDo9hnRGwaVUSSbl

 

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