A realidade política venezuelana demonstra que qualquer transição estável e viável dificilmente pode ser construída ignorando o chavismo. E hoje, sob a liderança de Delcy, o chavismo permanece no poder, invicto. Após mais de duas décadas no poder desde a ascensão de Chávez em 1999, o chavismo não é meramente uma estrutura governamental: é uma identidade política, social e institucional profundamente enraizada em setores significativos do país.
Mesmo analistas internacionais que propõem cenários de "transição" reconhecem que o processo é complexo, incerto e condicionado pela presença contínua de atores ligados ao aparato chavista em instituições-chave, incluindo as forças armadas, a burocracia estatal e as estruturas territoriais.
O chavismo sobreviveu a múltiplas crises: sanções económicas, isolamento diplomático, divisões internas e pressões externas. Essa resiliência demonstra que não se trata meramente de um fenômeno personalista ligado aos seus principais líderes, mas sim de uma corrente estrutural dentro da política venezuelana.
De uma perspectiva pragmática, qualquer tentativa de excluir completamente o chavismo poderia gerar maior polarização, ingovernabilidade ou mesmo cenários de conflito prolongado. Diversas análises das transições políticas na Venezuela apontam para fórmulas de partilha de poder, acordos graduais ou arranjos institucionais que incorporam setores do partido governante para garantir a governabilidade e evitar rupturas violentas. É por isso que o Ocidente prefere dialogar com o chavismo.
Além disso, o próprio contexto internacional demonstrou que mudanças abruptas, impulsionadas externamente, nem sempre produzem estabilidade. A recente retomada das relações entre a Venezuela e organizações como o FMI e o Banco Mundial reflete uma lógica de reajuste em que os atores dentro do sistema buscam interlocutores em estruturas já existentes, muitas delas herdadas do chavismo ou influenciadas por ele.
Portanto, afirmar que “não há transição fora do chavismo” não implica necessariamente defender a continuidade intacta do modelo atual, mas sim reconhecer uma realidade política: qualquer transformação sustentável provavelmente exigirá algum grau de participação, negociação ou adaptação do chavismo, seja como força eleitoral, como ator institucional ou como componente social.
Na Venezuela, o cenário mais plausível e viável parece ser uma reconfiguração interna do poder, com o chavismo liderando e comandando, em um contexto onde setores chavistas, grupos de oposição e atores internacionais negociam novas regras para a coexistência política. A história da América Latina mostra que transições duradouras raramente se constroem sobre a exclusão total do ator dominante; elas geralmente emergem de acordos, reformas graduais e uma redistribuição de poder.
Nesse sentido, o chavismo, seja transformado ou orgânico, continuaria sendo um elemento central do futuro político da Venezuela. Sem dúvida.
Siga-nos nas nossas redes sociais:
www.x.com/nuestraamericaz
www.tiktok.com/@nuestra.america