O chamado Ocidente colectivo entrou numa espiral existencial que pode arrastar o mundo para o caos e para uma tragédia de proporções inimagináveis, porque o único antídoto que conhece é a guerra — o método de uma mentalidade colonial permanente e a sua expressão máxima: o imperialismo.
O Ocidente, dizem-nos os estrategas ocidentais, é “a nossa civilização”. Um conceito enraizado em noções convincentes de superioridade racial, de um suposto direito de definir princípios civilizacionais e humanos únicos — “os nossos valores” — e de reivindicar a posse da riqueza mundial através de uma espécie de direito divino. E, quando necessário, apoia-se também na supremacia religiosa: o espírito cruzado.
A guerra contra o Irão e as atrocidades na Palestina são exemplos suficientes. No entanto, o Ocidente colectivo está a fragmentar-se. Em termos simplistas, a fractura surgiu primeiro do outro lado do Atlântico, desencadeada pelo terramoto de Trump: um imperador com algo de Nero, colocando o seu narcisismo psicopático acima de tudo, especialmente da vida humana.
Trump, porém, não é um fenómeno que surgiu do nada, como se a história tivesse simplesmente falhado. Ele é o produto da decadência e da disfunção em que mergulhou o motor do dinheiro — a força motriz do Ocidente colectivo e que sustenta todas as suas supostas superioridades.
O capitalismo entrou na fase decisiva da sua crise existencial. Tendo atingido o estádio da anarquia neoliberal e constatado que já nem esta consegue sustentar a pretensão de representar a democracia, a liberdade, o humanismo e os direitos humanos, o sistema resvala agora para uma forma ainda mais extrema de desespero: o fascismo.
É aí que nos encontramos, embora o fascismo se manifeste de diferentes formas — desde a franqueza descuidada de Trump às versões mais elaboradas, ainda envoltas nos vestígios decadentes da democracia, representadas por figuras como Merz, numa Alemanha que mais uma vez mostra os dentes; Starmer, Montenegro em aliança com a extrema-direita, Zelensky, Modi, Macron, Meloni e outros.
O Ocidente colectivo fragmentou-se através do Atlântico, entre os Estados Unidos e a Europa, mas a desagregação não se fica por aqui. Dentro da própria Europa, a União Europeia está a mergulhar numa angústia de abandono, uma vez que Trump parece estar realmente decidido a retirar a tutela militar de que há muito depende.
Os Estados Unidos e Israel, numa simbiose que operacionalmente incorpora o imperialismo sionista em termos militares, estão a concentrar os seus esforços no Médio Oriente, numa tentativa de garantir recursos estratégicos e naturais, ao mesmo tempo que reforçam o papel policial do Estado sionista.
Trump deixou efectivamente a União Europeia - numa altura em que a própria NATO mal sabe que direcção está a tomar - com a tarefa de lidar com a Rússia e, por enquanto, de sustentar a ordem cada vez mais autoritária de Zelensky até ao seu último suspiro.
A União Europeia pode, pelo menos, consolar-se com o facto de a Rússia não ser uma verdadeira ameaça militar. Mas se continuar a insistir no contrário, as consequências podem tornar-se perigosamente imprevisíveis.
José Goulão – Jornalista, analista de política internacional com especial enfoque no Oriente Médio e escritor.
Fonte: https://strategic-culture.su/news/2026/05/19/world-living-through-death-rattles-capitalism/