O ayatollah Seyyed Ali Khamenei pertence a esta última categoria. A sua história começou longe dos palácios do poder. Nascido em Mashhad, numa família humilde, encontrou os pilares da sua educação na fé, no conhecimento e no compromisso social.
Desde jovem que compreendeu que a religião não deveria ser um refúgio da injustiça, mas antes uma força espiritual para a enfrentar. Ao lado do Imam Khomeini (que a paz esteja com ele), participou na construção de um movimento que transformaria profundamente a história do Irão e da Ásia Ocidental.
Perseguido, preso e torturado pelo regime do Xá Pahlavi, o ayatollah Khamenei nunca vacilou na sua convicção de que a independência política, a soberania nacional e a justiça social eram princípios indissociáveis.
A Revolução Islâmica de 1979 representou muito mais do que a queda de uma monarquia. Simbolizou a determinação de um povo em retomar o controlo sobre o seu próprio destino.
Os anos seguintes apresentaram desafios extraordinários. A guerra, as sanções, o isolamento económico e as constantes pressões externas testaram a resiliência da República Islâmica.
Em vez de aceitar a dependência, o ayatollah Khamenei defendeu aquilo a que chamou a Economia da Resistência: investir na ciência, fortalecer as universidades, desenvolver tecnologia nacional e confiar nas capacidades do seu próprio povo.
Para ele, a verdadeira independência só poderia ser construída sobre a autonomia científica, económica e cultural.
A sua liderança transcendeu as fronteiras do Irão
A defesa da Palestina tornou-se um princípio central do seu pensamento político, não só como uma questão geopolítica, mas também como um imperativo moral.
Nos seus discursos, a causa palestiniana representava o direito dos povos à liberdade, à autodeterminação e à resistência a todas as formas de ocupação e colonialismo.
Ao longo das décadas, esta visão aproximou o Irão de vários movimentos e nações que reivindicavam a sua soberania face à pressão das grandes potências.
Para milhões de pessoas do Sul Global, o Ayatollah Khamenei passou a simbolizar uma política baseada na independência estratégica e na rejeição de que o destino das nações fosse decidido fora das suas próprias fronteiras.
O seu martírio, em Fevereiro de 2016, não produziu o efeito esperado por aqueles que acreditavam que iria enfraquecer a República Islâmica. Pelo contrário, transformou a sua vida num legado histórico. Milhões de iranianos saíram à rua para homenagear um líder cuja vida passou a representar perseverança, dignidade e resistência.
Os mártires ocupam um lugar único na memória das nações. A sua ausência física fortalece, muitas vezes, ainda mais o poder dos seus ideais.
A história demonstra que os grandes projetos políticos sobrevivem quando criam raízes profundas na consciência coletiva de uma sociedade. Neste sentido, o legado do Ayatollah Khamenei transcende a biografia de um líder. O seu percurso tornou-se um marco para todos aqueles que defendem um mundo multipolar, a soberania dos Estados e o direito dos povos a determinarem livremente o seu próprio destino, sem imposições externas.
Numa era em que as guerras, os bloqueios económicos e as intervenções estrangeiras continuam a ser utilizados como instrumentos de pressão internacional, a sua história recorda-nos que a resistência não surge apenas do poder militar.
Decorre, acima de tudo, da convicção de que a dignidade de um povo nunca pode ser negociada.
Os impérios acumulam poder.
Os povos acumulam memória.
O poder muda de mãos.
A memória transcende gerações.
Talvez o maior legado do Ayatollah Khamenei tenha sido demonstrar que os líderes podem desaparecer, mas os ideais enraizados na soberania, na justiça e na resistência continuam a caminhar ao lado dos povos que os abraçaram.
Sayid Marcos Tenório - historiador, analista geopolítico e presidente do Instituto de Amizade Brasil-Irão. É autor do livro Palestina: Do Mito da Terra Prometida à Terra da Resistência.
Fonte: https://www.hispantv.com/noticias/politica/646474/lider-martir-iran-resistencia-legado