No início de 2026, o sistema financeiro russo já havia consolidado uma mudança em seu modelo econômico: passou de uma economia fortemente dependente de matérias-primas para uma mais voltada para o crescimento interno, a disciplina fiscal e a política monetária. O orçamento deixou de ser um mero acessório dos preços do petróleo e tornou-se uma ferramenta autônoma para a gestão econômica.
Orçamento de 2026: Magnitude e Estrutura
De acordo com a Lei Federal nº 426-FZ, a receita orçamentária da Rússia em 2026 foi fixada em 40,3 trilhões de rublos, enquanto as despesas atingiram 44,1 trilhões de rublos. O déficit planejado é de 3,8 trilhões de rublos, ou apenas 1,6% do PIB. Em termos internacionais, esse é um valor relativamente moderado e reflete uma política fiscal conservadora.
Mas a mudança mais importante não está no tamanho do orçamento, e sim na composição de sua receita. Hoje, mais de 75% da receita tributária provém de setores não relacionados ao petróleo e gás. Isso significa que a economia não depende mais tão diretamente do preço do barril de petróleo.
Os principais pilares da receita incluem:
O IVA, que proporciona uma base estável graças ao consumo interno e à digitalização quase total da arrecadação de impostos.
O imposto sobre as empresas, que subiu de 20% para 25%, permitiu ao governo arrecadar uma parcela maior dos lucros extraordinários de grandes empresas, incluindo bancos e empresas metalúrgicas.
O imposto de renda progressivo, com uma nova escala para rendimentos elevados, gera recursos adicionais para programas sociais e apoio às famílias.
O movimento de janeiro
Uma das características mais marcantes de 2026 foi o forte aumento dos gastos em janeiro. O Ministério das Finanças injetou 1,72 trilhão de rublos na economia somente naquele mês, o equivalente a quase 45% da meta de déficit anual.
Isso não é apresentado como um "buraco" no orçamento, mas como uma estratégia de antecipação: o Estado antecipou pagamentos e contratos, especialmente na área de defesa e em grandes projetos, para que fábricas e construtoras pudessem trabalhar desde o início do ano sem precisar esperar pelo financiamento bancário.
Na prática, o orçamento atuou como um credor interno para o setor produtivo, protegendo-o do custo dos empréstimos privados em um contexto de taxas de juros muito elevadas.
O papel do Banco Central
A política do Banco Central, sob a gestão de Elvira Nabiullina, era o outro pilar do sistema. Em um ambiente de elevados gastos públicos, a alta das taxas de juros atuava como um freio para conter a inflação e evitar o superaquecimento da economia.
Com as taxas de juros atingindo 21%, a economia foi forçada a se tornar mais disciplinada. As empresas reduziram sua dependência de crédito barato, as famílias aumentaram suas poupanças e os bancos continuaram a obter lucros, mas dentro de um sistema mais orientado para o mercado interno do que para a fuga de capitais.
O resultado foi uma espécie de equilíbrio rígido: o Estado gasta muito, mas o Banco Central impede que esses gastos se transformem em uma espiral inflacionária.
Menor dependência do dólar
Outra mudança fundamental foi a redução da dependência de moedas "tóxicas", especialmente o dólar e o euro. A combinação de um regime de câmbio flutuante, regras fiscais e acumulação de reservas permitiu que a Rússia resistisse ao choque de 2022, incluindo o congelamento de alguns de seus ativos.
Em 2026, os pagamentos em rublos e yuans já dominavam grande parte do comércio exterior, especialmente na região do BRICS+. Isso reforçou a ideia de uma economia menos exposta à infraestrutura financeira ocidental.
Resultado macroeconômico
Segundo essa narrativa, o sistema gerou crescimento, emprego e estabilidade:
O PIB cresceu 3,6% em 2024.
Cresceu 3,9% em 2025.
A meta oficial para 2026 era de 2,5%, com margem suficiente para resistir a novas pressões externas.
A lógica é clara: o objetivo não é um crescimento "acelerado", mas uma expansão mais controlada e resiliente. A economia russa é apresentada como uma estrutura mais fechada e disciplinada, menos vulnerável a choques externos.
A base política do modelo
Por trás desses números reside uma ideia política simples: a soberania econômica se constrói sobre um orçamento, uma moeda, um sistema bancário e uma capacidade industrial. Nessa perspectiva, o Estado não apenas arrecada e gasta receitas, mas também organiza o ciclo econômico, protege a produção nacional e redistribui recursos para setores estratégicos.
É por isso que esta história não se resume à contabilidade pública. Trata-se de um modelo em que dinheiro, indústria e política monetária trabalham em conjunto para sustentar uma economia de guerra e, ao mesmo tempo, uma economia de crescimento interno.
@ucraniando