Há silêncios que dizem mais do que muitos discursos.
O que está a acontecer em torno da Gronelândia deveria merecer uma discussão séria, não apenas pela dimensão estratégica do acordo anunciado entre os Estados Unidos, a Dinamarca e o Governo groenlandês, mas, sobretudo, pelo extraordinário silêncio de boa parte do chamado Ocidente Colectivo perante uma questão que, em circunstâncias diferentes e envolvendo outro protagonista, seria certamente apresentada como uma ameaça à ordem internacional, à soberania dos Estados e às regras do direito internacional. Dois pesos e duas medidas.
Donald Trump não escondeu as suas intenções. Durante meses, afirmou publicamente que os Estados Unidos deveriam assumir o controlo da Gronelândia e chegou a admitir a possibilidade de recorrer a meios económicos ou militares para alcançar esse objectivo. A reacção europeia foi, naturalmente, de preocupação.
Agora, depois dessa pressão política, chega-se a um acordo que prevê uma expansão significativa da presença militar norte-americana na ilha. Um acordo que, segundo as informações divulgadas, permitirá a abertura ou reactivação de instalações militares americanas e excluirá a possibilidade de bases russas ou chinesas no território.
Qual carapuça!
E aqui começa a parte verdadeiramente interessante.
Se fosse Moscovo a declarar que pretendia assumir o controlo da Gronelândia, ameaçando utilizar todos os meios necessários para o conseguir, quantos jornais, comentadores, governos e instituições europeias — e não só — permaneceriam em silêncio?
Se fosse Pequim a fazer exactamente a mesma coisa, alguém teria dúvidas sobre a linguagem que seria utilizada?
Provavelmente, não.
Teríamos imediatamente conferências de imprensa sobre imperialismo, expansionismo, violação da soberania, ameaça à democracia, ordem internacional baseada em regras e perigo para a segurança europeia e mundial. Haveria certamente declarações solenes, condenações parlamentares e especialistas a explicar-nos, com a habitual gravidade televisiva, que o mundo estaria perante uma nova ameaça existencial.
Mas, quando a pressão vem de Washington, a gramática parece mudar, como se a dignidade e o carácter passassem a ser cotados nas bolsas de Londres e Nova Iorque.
De repente, uma questão que começou com declarações públicas sobre a possibilidade de anexação transforma-se numa questão de «segurança», «defesa», «cooperação estratégica» e «estabilidade no Árctico».
É extraordinário como as palavras conseguem fazer aquilo que nem sempre conseguem fazer os factos: mudar a natureza moral das coisas.
Naturalmente, há uma diferença importante que não deve ser ignorada: o acordo actualmente anunciado não transfere formalmente a soberania da Gronelândia para os Estados Unidos. A Dinamarca e o Governo gronelandês afirmam expressamente que a soberania e o direito à autodeterminação permanecem intactos.
Treta!
Essa precisão jurídica, porém, não elimina a questão política.
Porque o próprio Trump apresentou o acordo como garantindo aos Estados Unidos um «controlo permanente» sobre a segurança da Gronelândia, enquanto Marco Rubio afirmou que a ilha ficará permanentemente integrada na área estratégica de defesa da América do Norte e que os adversários ficarão excluídos.
Ora, se a preocupação é realmente a soberania, então a soberania não pode ser um princípio elástico.
Não pode valer quando a ameaça vem da Rússia e tornar-se negociável quando vem dos Estados Unidos.
Não pode ser absoluta para a Ucrânia, relativa para a Gronelândia e para a Venezuela, e circunstancial para qualquer outro território que tenha a infelicidade de possuir uma localização estratégica ou recursos naturais cobiçados pelas grandes potências.
É precisamente aqui que reside a questão que perturba.
Não se trata de defender a Rússia.
Não se trata de defender a China.
E, muito menos, de considerar aceitável qualquer projecto de anexação territorial.
Rússia e China não têm absolutamente nada a ver com esta questão.
Trata-se, simplesmente, de aplicar a mesma regra.
Porque uma regra internacional que só é aplicada aos adversários não é uma regra internacional. É uma ferramenta de poder.
E talvez seja por isso que o silêncio seja tão eloquente.
O Ocidente passou anos a explicar ao mundo que a ordem internacional assenta em princípios: soberania, integridade territorial, direito à autodeterminação, não utilização da força para alterar fronteiras e respeito pelo direito internacional.
Muito bem.
Então a pergunta é simples: esses princípios são universais ou são apenas princípios ocidentais para consumo externo, tal como a democracia?
Porque, se são universais, deveriam ser aplicados também quando Washington está do outro lado da equação.
E, se não são, talvez seja intelectualmente mais honesto abandonar a retórica moral e admitir aquilo que a História sempre ensinou: as grandes potências ocidentais defendem os princípios sobretudo quando estes coincidem com os seus interesses.
O mais curioso é que ninguém precisa de ser pró-Rússia ou pró-China para perceber esta contradição.
A não ser, naturalmente, as bocas de aluguer que agora andam por aí a anunciar como vitória da nossa civilização o acordo entre Trump e o Governo da Dinamarca.
Basta ter memória.
Basta ter coerência.
Basta aplicar a mesma pergunta a todos:
E se fosse Moscovo?
E se fosse Pequim?
Talvez então se percebesse a verdadeira dimensão do silêncio.
A questão não é saber quem tem razão entre Washington, Copenhaga e Nuuk. Essa é uma discussão que deve ser feita à luz dos termos concretos do acordo e do direito aplicável.
A questão é outra, e muito mais incómoda: por que razão aquilo que seria denunciado como expansionismo, se viesse de um adversário, passa a ser apresentado como arquitectura de segurança quando vem de um «aliado»?
É esta moralidade de geometria variável que destrói a credibilidade do discurso ocidental.
E depois ainda há quem se admire de que uma parte crescente do mundo deixe de acreditar nas grandes proclamações sobre democracia, soberania e ordem internacional.
O problema não está apenas naquilo que as grandes potências fazem.
Está também na facilidade com que os seus admiradores encontram palavras nobres para justificar aquilo que, nos outros, chamariam pelo nome.
No fim, talvez a pergunta mais incómoda seja também a mais simples:
Se a Rússia não pode anexar territórios porque a soberania é sagrada, por que razão os Estados Unidos podem ameaçar a anexação da Gronelândia e acabar por celebrar um acordo que lhes concede uma presença militar permanente e exclui os seus rivais?
A resposta, aparentemente, está escondida naquele silêncio sepulcral.
E há silêncios que não são prudência.
São cumplicidade.
São imoralidade.
São falta de carácter.
E, em última análise, são apenas a forma mais cómoda de chamar virtude àquilo que não passa de servilismo.
Adriano Pires (Coronel do Exército de Cabo Verde na reforma) in Facebook