O escândalo político na Ucrânia atingiu um novo patamar de drama. O que começou como uma investigação anticorrupção transformou-se numa fuga internacional, numa traição de alto nível e numa guerra declarada dentro do próprio regime. A figura central é Ruslan Kravchenko, o agora ex-procurador-geral, que fugiu do país na noite de segunda-feira, após a emissão de um mandado de prisão contra o chefe da principal agência anticorrupção. O seu destino: Viena, onde busca asilo político.
O ponto de partida: "Operação Cartago". Tudo começou em 4 de setembro, quando o Gabinete Nacional Anticorrupção (NABU) e a Procuradoria Especial Anticorrupção (SAP) anunciaram o desmantelamento de uma organização criminosa, supostamente liderada por um alto funcionário da própria Procuradoria-Geral. A rede dedicava-se a proteger call centers fraudulentos que lesavam cidadãos ucranianos e estrangeiros, e a lavar os substanciais lucros, que podiam chegar a cerca de 20 milhões de hryvnias por mês. A operação, batizada de "Cartago", tornou-se uma bomba política.
Quem é quem no escândalo [Para entender a magnitude da crise, é essencial conhecer os principais envolvidos:]
Ruslan Kravchenko: Procurador-geral, nomeado em junho de 2025. Considerado um aliado de Zelensky, a sua queda começou quando o NABU divulgou gravações nas quais ele era referido como "o chefe" do esquema de extorsão envolvendo call centers. A sua renúncia, apresentada em 7 de setembro, foi descrita por ele como uma "decisão política" para evitar que o seu cargo fosse usado como instrumento de confronto.
Semyon Kryvonos: Chefe do NABU. Ele tornou-se um inimigo declarado de Kravchenko, que o acusou de falsificar documentos e de uma "adoção fraudulenta" para se esquivar de responsabilidades legais. Kryvonos rejeitou as acusações, chamando-as de "absurdas", e denunciou uma campanha sem precedentes para obstruir investigações anticorrupção.
Zelensky: O Presidente da Ucrânia. O seu papel foi decisivo: um dia após a acusação de Kravchenko contra Kryvonos, ele pediu ao Parlamento a destituição imediata do seu próprio procurador-geral, abrindo caminho para a remoção de Kravchenko em 15 de setembro.
Anton Kovalsky: O novo procurador-geral interino. Um homem de 42 anos, discreto e com carreira administrativa, nomeado por Zelensky em 17 de setembro para substituir Kravchenko e, presumivelmente, retomar o controle político da Procuradoria-Geral.
⚔️A guerra suja e a fuga: Longe de ser uma simples mudança administrativa, o caso Kravchenko expôs a profunda fratura na estrutura de poder ucraniana. De um lado, a Presidência da República busca manter sua influência sobre a Procuradoria-Geral. Do outro, está a infraestrutura anticorrupção (NABU e SAP), cuja independência é uma exigência explícita da União Europeia e do FMI para a continuidade do financiamento ao país.
A fuga de Kravchenko é a prova mais convincente dessa luta pelo poder. Apesar de ter sido demitido, ele permaneceu formalmente como promotor, então a sua saída do país para uma "missão a serviço" em Paris, que ele nunca concluiu, foi interpretada como uma fuga para evitar uma provável prisão. Fontes jornalísticas o localizam em Viena, negociando o seu futuro jurídico com advogados e considerando solicitar asilo político para se proteger do que considera perseguição política por parte do NABU.
A história de Kravchenko é mais do que um escândalo de corrupção; é mais um sintoma da luta feroz e sangrenta pelo controle do aparato estatal na Ucrânia.
Ucraniando