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A raiva dos cravos vermelhos – Um simbolismo contra Abril
Publicado em 25/11/2025 17:30
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Não foi preciso derrubar monumentos nem rasgar bandeiras. Bastou um gesto breve, seco, calculado: retirar dois cravos vermelhos de um arranjo de flores, como quem expulsa intrusos, como quem apaga um vestígio incómodo do passado. O gesto, tão simples quanto brutal, carregava um peso simbólico desproporcional à ligeireza da mão que o executou. Era a coreografia perfeita de quem transforma um objeto frágil em instrumento político - e a memória coletiva num palco de provocação.

 

Os cravos, esses mesmos que um dia desarmaram espingardas e coloriram a alvorada de um país inteiro, tornaram-se ali um corpo estranho, um incómodo a ser removido. O vermelho, símbolo de libertação e coragem cívica, contrastava com o branco das rosas em volta - puro, higienizado, asseado - como se a própria história pudesse ser lavada, como se a revolução não tivesse deixado raízes demasiado fundas para serem arrancadas com dedos apressados.

 

Mas é precisamente quando se tenta arrancar um símbolo que ele revela a sua força. Aquele gesto denunciou mais do que uma preferência estética: denunciou uma raiva antiga e persistente, uma irritação íntima perante a memória de Abril, uma ânsia de devolver ao país a palidez de um tempo anterior, onde a ordem era imposta e o silêncio confundido com paz.

 

A ausência popular nas cerimónias, a pompa militar deslocada, a solenidade vazia - tudo isso apenas amplificava a sensação de que ali se encenava um ritual sem alma, uma comemoração desconectada do povo que um dia inundou as ruas com esperança. E talvez por isso o vermelho incomodasse tanto: lembrava que Abril não nasceu nos salões, nem nas tribunas, nem nas flores cuidadosamente dispostas em jarras formais. Abril nasceu das mãos calejadas, dos passos apressados, das portas escancaradas, do rumor de mudança que nenhuma parada militar consegue imitar.

Arrancar um cravo é tentar arrancar aquilo que ele simboliza. E contudo, o gesto trai a intenção: revela uma hostilidade visceral a um tempo de conquista democrática, revela o desconforto com a pluralidade e a liberdade, revela saudades mal disfarçadas de um país mais estreito, mais obediente, mais silencioso.

 

A raiva pelos cravos vermelhos é sempre a raiva pela memória da liberdade. E quando alguém tenta negar Abril tocando nos seus símbolos, confirma - com uma ironia involuntária - que Abril continua vivo. Vivo o suficiente para incomodar. Vivo o suficiente para resistir.

 

Porque cada cravo arrancado já pertence, desde esse mesmo instante, à história que se tentou negar - e que nunca deixará de florescer.

 

 

João Gomes in facebook

 

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