Há perguntas que não são ingénuas. E há perguntas que, feitas em público, dizem mais sobre quem as formula do que sobre quem responde. Quando um jornalista interpela Trump perguntando quando irá “mandar capturar Putin”, na sequência das referências à situação de Maduro, não está a fazer jornalismo - está a normalizar uma ideia perigosíssima: a de que os Estados Unidos podem, devem ou têm legitimidade para policiar o mundo à sua vontade.
A pergunta não surge no vazio. Surge num contexto em que Zelenskyi continua a ser tratado por parte significativa da comunicação social ocidental como o eixo moral absoluto do conflito na Ucrânia - mesmo quando a sua posição política interna é cada vez mais frágil, mesmo quando a guerra o colocou numa situação literal de “espada e parede”, dependente de apoios externos e refém de uma narrativa de confronto permanente.
O primeiro problema é este: a insistência em comparar realidades que não são comparáveis. Maduro, goste-se ou não, governa um país que foi alvo de décadas de sanções, operações encobertas, tentativas de desestabilização e reconhecimento seletivo de “presidentes alternativos” por parte do Ocidente. Putin, por sua vez, é o presidente de uma potência nuclear, eleito segundo o quadro constitucional da Federação Russa - quadro esse que existe e é reconhecido internamente.
Colocar ambos no mesmo saco não é análise política; é propaganda simplificadora.
Depois há a questão jurídica, sistematicamente ignorada. O Tribunal Penal Internacional emitiu uma decisão sobre Putin que a própria Rússia não reconhece, tal como os Estados Unidos não reconhecem o TPI quando este se aproxima das suas próprias ações militares. Defender que Washington possa executar ordens judiciais internacionais que só reconhece quando lhe convém é o equivalente geopolítico do “façam o que eu digo, não façam o que eu faço”.
Mais grave ainda é a ideia - implícita, mas clara - de que a captura de um chefe de Estado estrangeiro, fora de qualquer mandato das Nações Unidas, possa ser tratada como um procedimento normal, replicável e desejável. Caracas e Moscovo não são intercambiáveis. A Venezuela não é a Rússia. E quem sugere o contrário demonstra não apenas irresponsabilidade política, mas uma assustadora ausência de noção das consequências globais de tal raciocínio.
Zelenskyi, ao alinhar neste discurso - ainda que por desespero estratégico - revela algo inquietante: uma postura abertamente hostil a qualquer solução que não passe pela humilhação total do adversário. Não se trata já de defender a Ucrânia, mas de promover uma lógica de escalada permanente, onde a paz é vista como traição e o compromisso como fraqueza. É uma posição compreensível num líder pressionado, mas profundamente perigosa quando amplificada por megafones mediáticos irresponsáveis.
E aqui chegamos ao ponto central: os Estados Unidos não podem, nem devem, assumir o papel de polícia global. Não têm legitimidade jurídica universal, não têm autoridade moral consistente e, sobretudo, não têm um historial que sustente essa pretensão. As mesmas mãos que apontam o dedo a Caracas, Moscovo ou Teerão são as que bombardearam o Iraque sem mandato internacional, destruíram a Líbia e mantêm Guantánamo como monumento à exceção permanente.
Policiar o mundo não é defender a democracia. É substituí-la pela força. É transformar o direito internacional num instrumento seletivo. É legitimar a lei do mais forte com verniz moral.
A ironia suprema é esta: enquanto se acusa outros de autoritarismo, constrói-se um sistema onde a soberania só existe para quem obedece. Onde a legalidade depende do alinhamento geopolítico. Onde a paz é sempre adiada em nome de uma justiça que nunca chega.
A pergunta que deveria ser feita não é "quando capturar Putin" - é quem autorizou alguém a achar que pode capturar o mundo inteiro.
Autor: João Gomes in facebook