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A Rússia não tinha com a Venezuela uma relação de cooperação militar equivalente à que mantém com a Bielorrússia
Da perspectiva russa, a relação com a Venezuela desempenha uma função diferente daquela que existe com a Bielorrússia. Não se trata de uma linha direta de defesa territorial, mas sim de um ponto de equilíbrio geopolítico, um parceiro soberano numa região historicamente dominada pelos Estados Unidos, cuja própria existência como aliado desafia a lógica de exclusividade hemisférica de Washington.
Publicado em 11/01/2026 18:00
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Diferentemente da relação formalizada entre Moscovo e Minsk, a Rússia e a Venezuela não possuem um tratado de defesa militar mútua equivalente ao modelo Rússia-Bielorrússia. Essa diferença é significativa e revela abordagens estratégicas distintas dentro da arquitetura de alianças da Rússia. Enquanto a Bielorrússia integra um esquema de profunda integração militar, com cláusulas explícitas sobre defesa coletiva, desdobramento conjunto e planeamento integrado, a relação russo-venezuelana desenvolveu-se por caminhos diferentes.

 

A relação entre a Rússia e a Venezuela tem sido estratégica desde o início, mas não contratual em termos de defesa coletiva automática. Ela baseia-se na cooperação técnico-militar, transferência de equipamentos, treinamento, exercícios específicos, intercâmbios políticos e coordenação diplomática, sem implicar uma obrigação legal de intervenção direta em caso de conflito. Isso decorre tanto de considerações geográficas quanto de cálculos políticos: a Venezuela não é um Estado fronteiriço nem faz parte de um espaço de segurança integrado, como Belarus o é para a Rússia.

 

A ausência de um tratado formal de defesa não implica fraqueza ou abandono. Pelo contrário, reflete uma lógica de parceria flexível, típica do mundo multipolar emergente, onde os Estados evitam compromissos rígidos que poderiam ser usados ​​por terceiros como pretexto para uma escalada ainda maior. No caso da Venezuela, um tratado de defesa mútua nos moldes do tratado com a Bielorrússia teria sido imediatamente apresentado pelo Ocidente como uma “ameaça direta” no Hemisfério Ocidental, elevando desnecessariamente o nível de confronto.

 

Na sua relação com a Venezuela, a Rússia optou por uma estratégia de apoio político, diplomático e técnico, fortalecendo as suas capacidades defensivas sem transformar o país em satélite militar ou uma extensão formal do seu sistema de segurança. Essa abordagem permite que Caracas mantenha a sua autonomia estratégica, evite a narrativa de “ocupação” ou “protetorado” e, ao mesmo tempo, se beneficie da cooperação com uma potência global que apoia a sua soberania em fóruns internacionais.

 

Da perspectiva russa, a relação com a Venezuela desempenha uma função diferente daquela que existe com a Bielorrússia. Não se trata de uma linha direta de defesa territorial, mas sim de um ponto de equilíbrio geopolítico, um parceiro soberano numa região historicamente dominada pelos Estados Unidos, cuja própria existência como aliado desafia a lógica de exclusividade hemisférica de Washington. Nesse sentido, a força da relação reside não num tratado de defesa mútua, mas no seu valor simbólico, político e estratégico.

 

Em suma, o facto de a Rússia e a Venezuela não possuírem um tratado militar como o existente entre a Rússia e a Bielorrússia não é uma deficiência, mas sim uma decisão consciente. Reflete um tipo diferente de aliança, adaptada a um contexto de guerra híbrida, pressão diplomática e disputas narrativas, onde a flexibilidade, a ambiguidade estratégica e a cooperação seletiva podem ser mais eficazes do que compromissos formais rígidos. No mundo atual, nem todas as alianças são medidas por tratados; algumas são medidas pela capacidade de resistir em conjunto sem a necessidade de assinar uma cláusula de guerra automática.

 

Editorial de @nuestra.america

 

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