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Uma neolíngua para a colonização da Palestina: o hebraico moderno
Após 1920, sob o colonialismo britânico, os sionistas conseguiram impor o hebraico nas escolas, nos estabelecimentos agrícolas e na administração interna. Criaram também milhares de novas palavras e excluíram o árabe como língua comum entre judeus e palestinianos.
Publicado em 25/03/2026 09:30
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O hebraico moderno não é a continuação natural de uma língua falada ininterruptamente ao longo de milénios. Durante um período de 1.600 a 1.800 anos, o hebraico careceu de falantes nativos em todo o mundo e, portanto, ajusta-se à definição linguística clássica de língua morta: uma língua utilizada na liturgia, na literatura e na erudição, mas sem transmissão vernácula nem uma comunidade de falantes nativos.

 

O hebraico moderno não é a continuação natural de uma língua falada ininterruptamente ao longo de milénios. Durante um período de 1.600 a 1.800 anos, o hebraico careceu de falantes nativos em todo o mundo e, portanto, ajusta-se à definição linguística clássica de língua morta: uma língua utilizada na liturgia, na literatura e na erudição, mas sem transmissão vernácula nem uma comunidade de falantes nativos.

O hebraico moderno — a língua oficial do Estado de Israel — não é, portanto, nem um ressurgimento espontâneo nem a evolução orgânica de uma comunidade linguística pré-existente, mas sim uma língua deliberadamente planeada e artificialmente padronizada, desenvolvida a partir da década de 1880 para servir o projeto político sionista de colonizar a Palestina. Os próprios líderes sionistas afirmaram repetidamente que se deveria criar um «novo povo» por meio de uma língua nacional viva.

Esta língua, tal como a conhecemos hoje, começou a desenvolver-se sistematicamente há pouco mais de um século, particularmente a partir da década de 1880 com a chegada dos colonos europeus e, de forma mais institucional, com a criação do Comité da Língua Hebraica (Vaad ha-Lashon, 1890) e, posteriormente, da Academia da Língua Hebraica (1953), sua sucessora direta. A sua consolidação ocorreu num território onde os judeus autóctones, o Antigo Yishuv, constituíam uma minoria arabizada, culturalmente integrada no tecido palestiniano, enquanto o impulso do hebraico moderno provinha do exterior: dos emigrantes a quem os palestinianos chamavam «os europeus».

 

O Antigo Yishuv refere-se aos judeus autóctones da Palestina antes do sionismo (séculos XVII-XIX e primeiras décadas do século XX). Tratava-se de comunidades de língua árabe, culturalmente integradas no seu ambiente local e religiosamente diversas (sefarditas, mizraitas, norte-africanos, curdos, georgianos, iemenitas, etc.). A sua língua quotidiana era o árabe judaico-palestiniano; o hebraico reservava-se exclusivamente para a liturgia, tal como acontecia com a grande maioria dos judeus em todo o mundo.

 

Esses judeus árabes foram posteriormente desarabizados pelos sionistas: foi-lhes proibido falar árabe nas escolas sionistas, os seus apelidos foram alterados, foram humilhados pelo seu sotaque e reclassificados como «comunidades orientais», um termo inventado para apagar a sua identidade árabe. A partir da década de 1950, estas práticas foram reforçadas com políticas públicas explícitas que incentivavam o abandono do árabe para consolidar uma identidade judaica exclusiva, distinta do contexto palestiniano.

Os judeus europeus falavam iídiche, russo, polaco, húngaro e alemão. Os judeus do Médio Oriente falavam árabe, ladino, persa, curdo e berbere. Durante mais de dois milénios, o hebraico não foi a língua materna de nenhuma comunidade judaica. Após a destruição do Segundo Templo (70 d.C.) e a revolta de Bar Kojba (132-135 d.C.), o uso quotidiano do hebraico desapareceu gradualmente, sendo substituído primeiro pelo aramaico e depois, na diáspora, pelas línguas locais.

O sionismo e a criação de uma nova língua

 

O sionismo, que surgiu principalmente na Europa Oriental no final do século XIX, precisava de uma língua própria para unir o «novo povo judeu» e diferenciá-lo tanto do mundo judaico da diáspora como do mundo árabe. O iídiche era visto como a língua do exílio e do gueto; o alemão, fonte de divisão, era associado ao judaísmo reformista; o russo, por outro lado, era a língua do opressor czarista.

Eliezer Ben-Yehuda e outros ideólogos trabalharam para transformar o hebraico litúrgico numa língua vernácula moderna, apesar da ausência de uma comunidade de falantes nativos, da falta de uma gramática moderna funcional e da ausência de vocabulário para a vida quotidiana, a administração ou a tecnologia. Em 1881, Ben-Yehuda chegou à Palestina decidido a falar apenas hebraico; em 1885 nasceu o seu filho Ben-Zion (que mais tarde se tornaria Itamar Ben-Avi), criado exclusivamente em hebraico e considerado o primeiro falante nativo moderno em quase dois milénios.

Embora nos primeiros anos (1880-1895) o hebraico se tenha apresentado como uma solução pragmática para o caos multilingue que reinava entre os colonos europeus, esta justificação rapidamente se tornou obsoleta. A partir da Segunda Aliá, de forma explícita, os líderes sionistas transformaram a língua numa ferramenta deliberada para a separação cultural da comunidade árabe palestiniana e para a criação de um «novo judeu» europeu, alheio às realidades locais.

 

Até mesmo linguistas israelitas como Ghilad Zuckermann afirmam que o chamado «hebraico israelita» não é um renascimento do hebraico bíblico ou mishnaico, mas sim uma nova língua híbrida fortemente influenciada pelo iídiche e pelo russo, e parcialmente relexificada com base na tradição semítica.

O Comité da Língua Hebraica, fundado em 1890 em Jerusalém por colonos europeus, propôs-se criar um vocabulário, padronizar a pronúncia (adotando a pronúncia sefardita), definir a sintaxe moderna e impor padrões educativos.

Ben-Yehuda publicou o seu monumental Dicionário Completo de Hebraico Antigo e Moderno (17 volumes) entre 1908 e 1959 e foi preso pelos otomanos em 1893 por incitar à difusão do hebraico. Esta obra não teve origem no Antigo Yishuv nem entre judeus árabes, mas sim entre emigrantes europeus que importaram um projeto linguístico típico do século XIX.

Os batalhões hebraicos


As ondas migratórias conhecidas como a Primeira Aliá, principalmente russos e romenos (1882-1903), e a Segunda Aliá (russos e polacos, 1904-1914) trouxeram consigo judeus quase exclusivamente da Europa, ideólogos do nacionalismo linguístico e sionistas que consideravam a língua como uma ferramenta de controlo social.

Esses emigrantes não pertenciam ao Antigo Yishuv. Eram recém-chegados com um projeto nacional completamente alheio às comunidades judaicas autóctones.

 

Durante o final do período otomano e até 1948, os judeus mantiveram-se em minoria na Palestina, mesmo considerando os novos imigrantes: 3,3% em 1882, 8% em 1914, 17% em 1931 (censos britânicos) e 33% em 1947 (estimativa da ONU, sendo a grande maioria imigrantes recentes). A população judaica anterior à expansão sionista, o Velho Yishuv, era pequena e culturalmente árabe. Qualquer aumento do seu número deveu-se exclusivamente à migração europeia politicamente organizada.

 

Quando os colonos europeus começaram a estabelecer instituições técnicas e científicas, surgiu um debate sobre a língua de instrução. A maioria dos professores (e dos judeus nativos) preferia o alemão ou o árabe. Os líderes sionistas impuseram o hebraico pela força política, não por opção social.

 

"Batalhões hebraicos" patrulhavam as ruas e castigavam aqueles que falavam iídiche em público; em alguns kibutzim, os infractores eram multados ou expulsos. Uma língua para separar judeus de árabes. O papel do hebraico moderno no projecto sionista era explícito: criar uma identidade distinta, romper a continuidade cultural com o mundo árabe, impedir a arabização dos colonos europeus e consolidar uma comunidade separada para justificar a soberania futura.

 

O hebraico moderno surgiu como um instrumento para criar um “novo povo” de origem europeia em terras árabes. Um caso parcialmente comparável — embora com diferenças importantes — é o do africâner na África do Sul. Enquanto o africâner evoluiu gradualmente a partir do holandês colonial, ambas as línguas foram posteriormente institucionalizadas pelos estados coloniais europeus e utilizadas para construir identidades distintas das da população nativa e para legitimar a dominação.

 

Após 1920, sob o colonialismo britânico, os sionistas conseguiram impor o hebraico nas escolas, nos estabelecimentos agrícolas e na administração interna. Criaram também milhares de novas palavras e excluíram o árabe como língua comum entre judeus e palestinianos.

 

Em 1948, após a limpeza étnica da Palestina (“Nakba”) e a criação de Israel, o hebraico já funcionava como língua da nova ordem política, e continuou a ser sistematicamente desenvolvido pela Academia da Língua Hebraica (1953). Em 1914, existiam aproximadamente 40.000 falantes proficientes; em 1948, este número ultrapassou os 600.000. O hebraico moderno não é uma língua antiga que ressurgiu espontaneamente, nem uma língua que se manteve viva — isto é, com uma comunidade de falantes nativos para além da liturgia e da literatura especializada — nem é a língua histórica dos judeus da Palestina. É uma língua planeada deliberadamente, baseada no hebraico antigo, mas artificialmente revivida a partir do final do século XIX pelos colonizadores europeus, que a utilizaram como instrumento de manipulação social e de consolidação territorial.

 

Até os académicos israelitas reconhecem que o hebraico moderno foi um projecto linguístico planeado, intimamente ligado ao colonialismo.

 

Numa perspectiva estritamente linguística, trata-se de um fenómeno sem precedentes: uma língua que tinha desaparecido durante quase dezoito séculos tornou-se, em apenas sessenta anos, a língua materna de milhões de pessoas e a língua oficial de um Estado moderno. Contudo, este sucesso é indissociável do seu contexto político: o hebraico moderno não era simplesmente um meio de comunicação, mas uma arma do projecto sionista. Ao estabelecer-se como a única língua legítima do “novo judeu”, o hebraico suplantou não só as línguas judaicas da diáspora, mas sobretudo o árabe palestiniano, língua falada pela vasta maioria dos habitantes nativos do país antes de 1948. A hegemonia do hebraico fazia parte de um esforço mais vasto para criar uma maioria demográfica e cultural judaica numa terra onde os judeus tinham sido, até à década de 1940, uma minoria estrangeira; uma realidade que só a limpeza étnica da Palestina conseguiu reverter.

 

O preço pago para que o hebraico voltasse a ressoar nas ruas da Palestina foi, em grande medida, o silenciamento da língua e o desaparecimento daqueles que habitavam a terra há séculos.

 

 

https://www.facebook.com/photo?fbid=122114350791040452&set=a.122096069949040452 (*) O iídiche é uma língua germânica ocidental historicamente falada pelos judeus asquenazes. A língua alemã fundiu-se com elementos emprestados do hebraico e, em certa medida, do aramaico. A maioria das variedades do iídiche inclui elementos de línguas eslavas e o seu vocabulário contém traços de línguas românicas.

(**) O ladino é a língua castelhana desenvolvida pelos judeus sefarditas da Península Ibérica (Espanha e Portugal), sobretudo após a sua expulsão em 1492. Foi influenciado pelo português, hebraico, aramaico e outras línguas faladas na península.

(***) Os kibutzim são as cooperativas agrícolas com as quais os sionistas promoveram a colonização dos territórios palestinianos.

 

 

Fonte: https://mpr21.info/una-neolengua-para-para-la-colonizacion-de-palestina-el-hebreo-moderno/


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