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Cuba, O Bloqueio, a Solidariedade e a Lição de um Povo que Não se Rende
Pergunto-me, por vezes, como seria a vida em Portugal se estivéssemos submetidos a este terror humanitário durante um ano.
Publicado em 25/03/2026 12:30
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Há muitos anos que atravesso o oceano para estar com Cuba. Conheço a ilha em dias de bonança e em dias de cerco. Tenho lá família – não de sangue, mas daquela que se escolhe com o coração. E quando, há pouco mais de três meses, o petróleo deixou de entrar, os meus contactos não se calaram. Os relatos chegam-me por mensagem, por voz, por silêncio. E é desse silêncio que quero falar.

 

O bloqueio a Cuba não começou hoje. Dura há quase sete décadas. Mas agora, com a doutrina de terra arrasada de Donald Trump, com o braço armado de Narco Rubio – esse que esqueceu a história dos pais, que fugiram de Batista para depois servir quem os fez fugir – o cerco chegou ao limite. Nenhuma gota de petróleo entra na ilha. E enquanto alguns aplaudem o estrangulamento, Cuba resiste. Como sempre resistiu.

 

O bloqueio a Cuba não começou hoje. Dura há quase sete décadas. Deste lado do oceano, olho para a situação actual, penso na minha família cubana, nos meus amigos. Felizmente, há sempre um contacto, uma resposta. Sim, a situação não é fácil. Há pouco mais de três meses não entra uma gota de petróleo em Cuba. Adivinhar quem é o responsável por tamanho acto desumano? É fácil. Donald Trump, com a sua doutrina Downroe, acompanhado pelo incapaz Narco Rubio – um ser humano desprezível que esqueceu a história dos seus pais, que fugiram da ilha devido às perseguições do seu amado Fulgencio Batista.

 

Caminhar pelas redes sociais é, por vezes, deparar com o sórdido. Deparamo-nos com gente que eleva Trump e a sua pandilha Epstein à categoria de deuses, que festeja o estrangulamento da ilha, a asfixia de um povo cuja única dádiva ao mundo foi a solidariedade. Médicos, professores nas zonas mais remotas do globo, onde ninguém quer exercer.

 

Recordo Março de 2020. Cuba não virou a cara. Enviou médicos quando mais ninguém queria sair de casa. As brigadas que chegaram a Itália para ajudar um povo fustigado pela pandemia são apenas um dos exemplos mais marcantes. Mais uma vez, Cuba e o povo cubano mostraram ao mundo o que é a solidariedade entre os povos.

 

Olho para Portugal. Sou português com orgulho, um povo que sempre foi solidário ao longo da sua história. Somos milhões em apoio a Cuba. Olho com orgulho as campanhas realizadas pela Associação de Amizade Portugal-Cuba. O povo português sabe o quão importante é a sua ajuda neste momento.

 

No entanto, há sempre uma parte sórdida. Como em qualquer sociedade, existem aqueles que se creem os donos da verdade. Falam de ditaduras, de presos políticos, fruto da narrativa da imprensa mainstream e das mentiras contadas pelo império. Torna-se triste olhar para uma parte desta sociedade e vê-la aplaudir este genocídio em câmara lenta, como se os cubanos tivessem de ser varridos da face da terra por defenderem a sua revolução e a sua soberania.

 

Pergunto-me, por vezes, como seria a vida em Portugal se estivéssemos submetidos a este terror humanitário durante um ano. O facto é que, olhando para a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, a vida já pede contas. Diariamente, tudo aumenta: o preço dos combustíveis, a cesta básica, os juros dos empréstimos à habitação. Vivemos no chamado primeiro mundo, um país que nada ou quase nada produz, que vive basicamente do turismo. Se Portugal, que não está sob bloqueio, já sente o peso da guerra que o governo apoia, quanto mais Cuba, que vive estrangulada há mais de 60 anos?.

 

Ao longo de tantas travessias do oceano, visitei a ilha vezes sem conta. Fui criando laços familiares, laços de amizade. Ao ponto de sentir na pele como o bloqueio afecta a vida de um ser humano. Entre apagões quase diários, dias e dias, a mesma comida. Mas isso não importa. O que importa é o que aprendo, dia após dia, com um povo que não vira a cara à luta. Que enfrenta o império olhos nos olhos. Que resiste. Que luta pela sua soberania.

 

Foi o suficiente terem aturado o império espanhol. Um dia, chegou o basta. E os bravos mambises iniciaram a revolução que dura até aos dias de hoje.

Os cubanos são resilientes. Dia após dia, enfrentam as agruras do bloqueio. Reinventa-se nas escolas, nos hospitais. Sempre que um aparelho se avaria, “ao modo cubano” com engenho, com reutilização, com a sabedoria de quem aprendeu a fazer muito com pouco. Nos dias que correm, os apagões são mais constantes. Falta o petróleo – algo essencial para que qualquer pequena aldeia, vila, cidade ou país do mundo possa viver. Mas em Cuba, reinventa-se. Os relatos vão-me chegando. Ao contrário do que dizem, o povo está mais unido do que nunca. A solidariedade entre os cubanos é algo que tive de ver com os meus olhos.

 

As ruas podem estar escuras. Mas há sempre uma música. Um holofote a iluminar parte da rua. E aí podemos ver as pessoas a conversar, pessoas a dançar, a jogar dominó, xadrez. Nunca falta a sua cerveja ou um gole de rum. Apesar do momento extremamente difícil imposto pelo império, a verdade é que Cuba está mais unida na sua revolução do que nunca.

 

Cuba resiste. E enquanto resiste, ensina-nos: a dignidade não se apaga com apagões. A revolução não se rende com falta de petróleo. E o povo, quando é povo, inventa a luz.

 

Cuba sempre foi solidária com o Mundo. Enviou médicos quando o Mundo fechou as portas. Ensinou a ler quando outros ensinavam a odiar. Estendeu a mão quando a mão que se estendia era só a dela. É imperativo, neste momento, que o Mundo seja solidário com Cuba.

 

Porque não é Cuba que precisa da humanidade. É a humanidade que precisa de Cuba.

 

Porque Cuba já venceu um império. E venceu-o com fome, com armas de pouco alcance, com a certeza de que a liberdade não se negocia. Os mambises ensinaram-lhes isso, há mais de um século. Hoje, os filhos e netos desses guerreiros enfrentam outro império – o mesmo, com outro nome, outra bandeira, a mesma ganância. E não se vergam.

 

Não se vergaram ao Império Espanhol. Não se vergam ao Império Americano. E não se vergarão a nenhum outro que venha. Porque Cuba não é uma ilha. Cuba é uma ideia. E as ideias, camarada, não se bloqueiam.

 

 

Paulo Jorge da Silva | Activista português que viu, cheirou e sentiu o bloqueio. Pela soberania de Cuba. Pelo fim do cerco. Pelos milhões que, em silêncio, já decidiram de que lado estão. Porque os princípios, como Fidel ensinou, não se negoceiam.

 

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