No século XVI, as tropas do rei português Dom Sebastião I desembarcaram no norte da África com o intuito de expandir o domínio lusitano. A empreitada culminou na desastrosa Batalha de Alcácer-Quibir, que resultou na morte de Sebastião, do sultão aliado que o acompanhava e também de seu rival marroquino. A derrota não apenas dizimou a elite militar portuguesa, como precipitou uma crise dinástica que submeteu Portugal por décadas ao domínio da Casa de Habsburgo.
Do trauma nasceu um mito: a crença de que o rei desaparecido retornaria para restaurar a grandeza perdida. Esse fenômeno, conhecido como sebastianismo, não foi apenas uma curiosidade histórica — tornou-se uma marca profunda da cultura política luso-brasileira. No Brasil, essa mentalidade encontrou terreno fértil e atravessou séculos sob novas formas: a eterna busca por um salvador nacional, por um homem providencial que resolva, de cima para baixo, os dilemas do país.
Desde a independência, o Brasil oscilou entre figuras elevadas à condição de redentores e subsequentes frustrações. De Dom Pedro I, protagonista do processo de ruptura, mas incapaz de consolidar estabilidade política duradoura, até líderes contemporâneos que mobilizam massas sob promessas de redenção, o padrão se repete: esperança concentrada em indivíduos, seguida de desencanto inevitável.
O problema não reside apenas nos líderes, mas na mentalidade que os sustenta. O sebastianismo moderno não espera mais um rei desaparecido — espera um presidente, um governante, um “salvador”. Trata-se de uma lógica profundamente passiva: a transferência da responsabilidade política do cidadão para uma figura central. Nesse processo, a sociedade abdica de seu papel ativo e adota uma postura infantilizada, na qual direitos são reivindicados com fervor, mas deveres são sistematicamente ignorados.
Essa cultura contribui para a fragilidade institucional. Quando o foco recai sobre pessoas, e não sobre regras, abre-se espaço para o personalismo, o clientelismo e a instabilidade. Não por acaso, ciclos de entusiasmo e frustração se sucedem, sem que haja amadurecimento político proporcional.
A realidade, ainda que desconfortável, é simples: a liderança de um país reflete, em grande medida, o caráter de seu povo. Nenhuma mudança estrutural virá de um indivíduo isolado. Ela emerge de uma sociedade que se reconhece como agente histórico.
O verdadeiro antídoto ao sebastianismo é o surgimento de um cidadão ativo — aquele que compreende que política não se limita ao voto, mas envolve participação constante, vigilância, organização e responsabilidade. Um cidadão que rejeita o paternalismo, cobra instituições, valoriza o mérito e se recusa a reproduzir práticas que corroem a vida pública, como o oportunismo e o chamado “jeitinho brasileiro”.
Instituições sólidas não nascem de decretos nem de líderes carismáticos — nascem da pressão contínua de uma sociedade consciente de seus deveres. Sem isso, qualquer promessa de salvação será apenas mais um capítulo de um ciclo já conhecido.
O brasileiro ideal ainda parece distante. Mas toda ruptura histórica começa com a recusa de um padrão. O abandono da espera por salvadores e a adoção da responsabilidade individual são os primeiros passos para uma transformação real. Nenhum homem providencial virá. E, quando essa verdade for plenamente compreendida, talvez o país finalmente comece a mudar.
Lazare Carnot : pseudónimo. Observador da vida política, da guerra e da história.
Publicado por Sétima República in Substack