A história tem-no demonstrado com uma clareza incómoda: a democracia não morre apenas por golpes de Estado ou ruturas súbitas e espetaculares. Muitas vezes definha em silêncio, corroída lentamente por práticas aparentemente menores que, acumuladas ao longo do tempo, degradam a qualidade da política e corroem a confiança dos cidadãos nas instituições.
Entre essas práticas sobressaem a intriga política, o ressabiamento pessoal e a frustração dos arrogantes — três males distintos, mas frequentemente entrelaçados, que abrem caminho à incompetência e ao populismo barato, enquanto empobrecem o espaço público e banalizam o exercício do poder.
A intriga política surge quando o debate de ideias é substituído pela conspiração permanente. Já não se discute o que é melhor para o país, mas quem perde influência, quem ganha protagonismo e quem deve ser neutralizado nos bastidores. Instala-se, assim, um ambiente político tóxico que favorece a suspeita, a deslealdade e o cálculo mesquinho, transformando a ação pública num jogo opaco, distante da vida real dos cidadãos.
Quando a intriga se torna método, os melhores quadros afastam-se, os mais capazes desmotivam-se e a política converte-se num labirinto de manobras internas, incompreensível para quem observa de fora. O resultado é uma democracia formalmente intacta, mas substancialmente empobrecida, onde a aparência de normalidade esconde a erosão do conteúdo.
O ressabiamento, por sua vez, nasce da incapacidade de aceitar derrotas, críticas ou limites. É o combustível de uma política feita de ajustes de contas e vinganças simbólicas reiteradas. Líderes e atores políticos movidos pelo ressentimento não procuram soluções; procuram compensações emocionais. Governam olhando para trás, presos a ofensas reais ou imaginadas, incapazes de reconhecer que errar faz parte da condição humana, e que um erro não se combate com outro erro.
Falta-lhes espírito crítico, mas falta-lhes sobretudo a grandeza do bom senso, indispensável a qualquer convivência democrática madura.
Este comportamento cega, contamina o discurso público, radicaliza posições e inviabiliza compromissos — elemento essencial em qualquer democracia plural. Onde não há compromisso, resta apenas a imposição ou o bloqueio estéril.
Mais perigosa ainda é a frustração dos arrogantes e infalíveis. Ela emerge quando a sede de vingança e a convicção infundada de superioridade moral colidem com a realidade. Incapazes de reconhecer os próprios erros ou limitações, estes atores desvalorizam instituições, especialistas e regras, acusando-os de bloquearem a “vontade do povo” ou o seu alegado “verdadeiro mérito”. Agem como autoritários puros, mesmo quando se apresentam sob o disfarce da virtude democrática. É neste terreno que o populismo barato floresce: promessas simples para problemas complexos, culpados fáceis para falhas estruturais, slogans em vez de políticas públicas, sem escrúpulos quanto aos meios utilizados para alcançar interesses pessoais ou de grupo.
A conjugação destes três fatores cria um círculo vicioso. A intriga mina a confiança, o ressentimento destrói a cooperação e a arrogância legitima a incompetência. Os cidadãos, cansados e desiludidos, afastam-se da participação cívica ou, pior, aderem a soluções que prometem ordem e rapidez à custa da liberdade, do pluralismo e da racionalidade democrática.
Defender a sociedade e a democracia deste desgaste não exige heróis providenciais nem salvadores de ocasião. Exige, antes, uma mudança de atitude. Exige líderes com maturidade emocional, capazes de perder sem conspirar, de discordar sem odiar e de governar sem desprezar — líderes de sentido de Estado, não de palavras de ordem ocas.
Exige partidos que valorizem a competência e o serviço público acima da lealdade cega. E exige cidadãos atentos e críticos, que recusem o espetáculo da intriga e resistam à sedução fácil do populismo simplista.
A pedagogia democrática passa, em última instância, por recordar que a política é um meio ao serviço do bem comum, não um palco para frustrações pessoais. Quando o interesse coletivo é substituído pelo ego, todos perdem: o Estado torna-se ineficaz, a economia fragiliza-se e a coesão social dissolve-se.
Defender a democracia hoje não é apontar o dedo, é, antes de mais, exigir seriedade, humildade e responsabilidade — virtudes discretas, pouco ruidosas, mas absolutamente indispensáveis ao bom funcionamento do Estado de direito.
Autor: Coronel Adriano Pires in Facebook