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Porque o populismo agrada aos menos favorecidos
(Ou como o Estado abandona, o mercado não entra e o populismo agradece)
Publicado em 27/12/2025 17:00
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Durante anos, disseram-nos que fechar serviços era modernizar. Que encerrar bancos públicos, finanças, extensões de saúde e tribunais era racionalizar. Que concentrar tudo nas grandes cidades era eficiência. E que a regionalização era perigosa - podia gerar desvios, clientelas, erros locais. O centro sabia melhor.

 

O resultado está à vista: um país oco por dentro, onde o Estado desapareceu antes de explicar porquê, e onde a democracia passou a ser uma visita episódica, geralmente em campanha eleitoral.

As políticas neoliberais - essas que raramente se assumem pelo nome - decidiram que o interior não era investimento, mas custo. Que populações envelhecidas não eram cidadãos, mas números estatísticos. Que a proximidade era ineficiente e que a distância administrativa era sinónimo de rigor. Fez-se o abandono com linguagem técnica, gráficos e relatórios. Tudo muito responsável.

 

E depois veio o espanto.

 

Espanto porque as populações, privadas de serviços, de informação e de presença institucional, começaram a desconfiar do sistema. Espanto porque passaram a votar em quem fala alto, simples e direto. Espanto porque o populismo encontrou terreno fértil onde antes havia escolas, bancos e repartições públicas.

 

Chama-se a isto “falta de esclarecimento”, como se fosse um defeito individual. Mas o esclarecimento não nasce espontaneamente. Constrói-se com acesso, com debate, com Estado presente. Quando durante décadas se substitui o direito pelo favor, o serviço público pela boa vontade do presidente da junta, e a política por uma gestão de sobrevivência, não se forma cidadania - forma-se dependência.

 

A recusa persistente da regionalização surge então como o toque final de ironia histórica. Em nome da precaução, mantém-se tudo centralizado. Em nome do medo de caciques locais, entrega-se o território a caciques informais. Em nome da estabilidade, produz-se ressentimento. E em nome da democracia, esvazia-se a sua prática quotidiana.

 

Entretanto, o interior repovoa-se com mão de obra imigrante - muitas vezes mais integrada economicamente do que politicamente - enquanto os discursos populistas, importados ou reciclados, explicam o mundo em frases curtas e culpam sempre alguém distante. Bruxelas, Lisboa, “eles”.

 

O populismo não cresce apesar das políticas neoliberais. Cresce por causa delas. É o produto interno bruto da desertificação, da ausência do Estado e da recusa sistemática em partilhar poder e decisão.

 

No fim, talvez o problema não seja que o populismo agrade aos menos esclarecidos. Talvez o problema seja um modelo político que precisa de populações pouco esclarecidas para continuar a governar à distância, sem incómodos e sem perguntas.

E isso, convenhamos, já não é ironia. É método.

 

 

Autor: João Gomes in Facebook

 

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