A 1 de janeiro de 1959, entravam em Havana as primeiras colunas militares que instituíam a experiência revolucionária mais inspiradora da segunda metade do século XX. A uma centena de quilómetros da Florida, a Revolução Cubana representou — e continua, talvez, a representar — a mais traumática cicatriz nas políticas imperialistas norte-americanas para as Américas. A um tal ponto que, contra a vida do seu líder, Fidel Castro, se ensaiaram (com a colaboração da Máfia, em muitos casos) mais de 600 atentados, todos eles conjurados (Fidel até na sua morte, aos 90 anos, a 25 de novembro de 2016, por causas naturais, desafiou o império), conforme se apurou nas investigações do próprio Senado norte-americano, através do Relatório do Comité Church (ver aqui: https://www.aarclibrary.org/.../church/reports/contents.htm) e documentação posterior.
Invasões militares derrotadas, como a da Playa Girón (Baía dos Porcos) em 1961 — após a qual Kennedy decretou a guerra económica através do bloqueio prosseguido por todas as administrações da Casa Branca, sem exceção, na tentativa de estrangular a revolução e o seu povo, desde então até aos nossos dias (ver aqui um resumo das consequências socioeconómicas desta infâmia: https://cubaminrex.cu/.../files/2025-09/InformeB2025.pdf) ; rapto de 14 mil crianças nos anos imediatamente posteriores à revolução, através da chamada Operação Peter Pan, conduzida pela CIA e por padres católicos, criando a maior deslocação involuntária de menores de idade desacompanhados na história (ver documentário aqui: https://www.youtube.com/watch?v=sLlwxM_cfYo); pulverização recorrente dos campos agrícolas com agentes de guerra química através de aeronaves oriundas dos Estados Unidos; introdução de agentes de guerra biológica, gerando epidemias entre os animais e as pessoas; campanhas de atentados bombistas contra instalações turísticas; campanhas mediáticas à escala mundial baseadas na promoção do descontentamento de um povo cujo sofrimento resulta da pauperização originada pela guerra económica — cujos efeitos são sempre escamoteados nessas campanhas (ver aqui: https://fair.org/.../media-play-up-protests-play-down.../); de tudo tem sido feito contra este pequeno país, com uma dimensão aproximada da nossa em território e população.
Por contraste, durante a pandemia de Covid-19, Cuba criou a primeira vacina contra o SARS-CoV-2 (apesar de, durante longo tempo, não poder administrá-la ao seu povo pela escassez de seringas devido ao bloqueio económico).
Por contraste, este que é o país do mundo com melhor taxa de médicos per capita, com os melhores indicadores de mortalidade infantil, com a maior taxa de alfabetização e onde todos os serviços sociais estão garantidos a toda a população, enviou equipas médicas para diferentes pontos do mundo, entre os quais a europeíssima Itália (ver aqui: https://www.rainews.it/.../Coronavirus-arrivati-in-Italia...).
Por contraste, num balanço de 2022, constatava-se que, em apenas três anos, o método cubano de alfabetização introduzido nas Honduras por professores cubanos permitiu ensinar a ler mais de meio milhão de pessoas. Esse método desdobra-se hoje adaptado para outros idiomas.
Por contraste, médicos, professores, engenheiros e quadros técnicos: tudo isto a Cuba revolucionária e materialmente asfixiada pela guerra económica tem dado ao mundo. Mas, também, apoio militar, como o dos milhares de cubanos que deram a vida em Angola, impedindo que as tropas fascistas do apartheid sul-africano chegassem a Luanda em 1975. Tudo isto configura uma diplomacia do altruísmo que o cinismo convencional nas relações internacionais terá sempre dificuldade em compreender.
Neste ano, em que Cuba assinala o centenário do nascimento de Fidel Castro e em que passam 67 anos de construção de um "mundo outro" e, também, da mais perseverante e criminosa atuação contra ele, vale recordar um precioso texto do religioso brasileiro Frei Betto — não um perigoso "castrista", mas sim um teólogo humanista da libertação latino-americana, com um profundo conhecimento de Cuba, das suas realizações e dificuldades (ler aqui: https://www.freibetto.org/cuba-resiste/).
Vale também a pena compreender por que razão a Universidade de Nottingham, no Reino Unido, consagra a Cuba uma linha especial de investigação no seu Departamento de Estudos Portugueses e Hispânicos (ver aqui: https://www.nottingham.ac.uk/research/groups/cuba/index.aspx).
E vale, neste 1 de janeiro de 2026, esboçar uma aproximação ao entendimento dos motivos pelos quais, em Cuba, a esperança não cedeu ao desespero, fazendo-o pela via mais imediata: a da poética contida neste canto de Chico Buarque e Silvio Rodríguez, que compôs a "Pequeña Serenata Diurna" / "Soy un hombre feliz" (aqui: https://www.youtube.com/watch?v=pyIIHw8W0ks).
Quando a bestialidade fascistoide de um comentador português, com uma carteira profissional de jornalista no bolso e um relógio de ouro no pulso, bolsou um infame "aquilo em Cuba já não é nada, nem luz tem", confundindo luz com eletricidade; quando a brutalidade do mundo se afirma sob as múltiplas formas de uma inominável catástrofe moral, que iniciemos 2026 com Cuba e a sua poesia.
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